"Sinto-me um artista livre"

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É certo dizer-se que o direito de autor em Angola é uma questão que deixa muito a desejar? 


 



A sua última exposição aconteceu no princípio de 2009. Em que é que está a trabalhar neste momento?
Este ano só fiz uma exposição, mas é preciso lembrar que em dez anos fiz mais de dez exposições individuais e participei em mais de trinta colectivas.

Também, periodicamente, durante o ano, saio para pintar na Alemanha, com o meu amigo Horst Popp. Juntos criamos o chamado Grupo Conexão.

Este ano mesmo participamos numa grande exposição, denominada NordArt 2009, que se realiza naquele país e que é considerada a maior exposição de arte na Alemanha. Nesta exposição, mais de mil e 900 artistas concorrem, mas ó pouco mais de 200 é que são eleitos para o evento, pelo que é muito difícil entrar neste grupo.

Vê-se nas suas obras que tem estado a enveredar muito para a corrente abstracta, quando no começo do seu trabalho optava mais pelo figurativo…

O abstracto pode parecer muito fácil, mas não é. Acho que um artista deve cultivar. Não ter um só caminho. Mas em mim isso é espontâneo; primeiro, gostava muito do abstracto; depois tentei o figurativo: estudei vários aspectos da cultura de Angola, como as máscaras, e desenvolvi uma série de exposições a que denominei “África Mitológica”. Continuo a pintar abstracto enquanto pinto estas coisas. Diz-se que não há África sem máscaras. E a máscara está sempre presente na minha pintura, nos meus desenhos. Assim como as aves, por exemplo, porque elas simbolizam a liberdade. E é essa liberdade que o pintor também deve ter, ensaiando os seus voos com várias técnicas e formas de expressão.

Quando pinta o abstracto, em que é que pensa, ou o que é que quer transmitir?
Olha, por exemplo, a série que estou a pintar neste momento denomino-a de “Explosão de Alegria”. No fundo, esta liberdade de jogar as tintas… sabes que elas são caríssimas! Muitos pintores chegam aqui e dizem que é uma loucura, que estrago a tinta. Mas como artista sinto-me livre a atirar estas tintas, dar-lhes um movimento cromático. Estas vibrações cromáticas são também sinónimo de liberdade.

Pollock, por exemplo foi um artista tido como símbolo de liberdade na América, depois da segunda guerra mundial. Ou Kandiscky que faz um percurso da opressão para a liberdade. São estas nuances que o tempo, a história nos dá. Tentamos, como dizia o poeta Agostinho Neto, colocar uma pedra nos alicerces do mundo.

Muito da sua obra esta representada em muitos locais importantes do país e mundo. Como consegue gerir isso?
Tive uma amiga que por acaso dizia sempre isso: vocês não imaginam onde é que as nossas obras podem ir parar. Podemos ter uma obra na embaixada de Angola na Alemanha, nos EUA, na Rússia ou num país considerado importante do ponto de vista estratégico, assim como em instituições ou empresas que actuem a nível internacional. São estas coisas que sustentam a ideia de que a gente não sabe onde podem ir parar os nossos quadros. Nestes últimos três dias, por exemplo, a vice ministra dos Transportes, arquitecta Carla, propôs que a minha obra denominada “O clamor da paz” ficasse numa das paredes da sala de desembarque do Aeroporto 4 de Fevereiro, recentemente reabilitado e ampliado. Trata-se de um quadro que para mim é o mais importante, por aquilo que ele representa; pintei em 2001, esteve exposto pela primeira vez em Paris, numa exposição organizada por Adriano Mixinge. Foi criado num momento histórico de Angola, quando todos nós angolanos ansiávamos pela paz, e isso ocorreu um ano depois.

Esta obra é composta por seis peças que, montadas, dão uma dimensão de dois por seis metros. Repare que nos últimos anos evolui para uma capacidade pintar quadros, se calhar, quatro vezes maior.

Tem sido comum os empresários nacionais ou responsáveis de instituições públicas e privadas fazerem este tipo de propostas?
Infelizmente não. Mas precisamos destes gestos. Precisamos que as pessoas que dirigem, que têm o poder de decisão tenham também uma atenção pela arte e consigam fazer com que o panorama nacional mude. Por exemplo, que os hotéis que estão a ser construídos no nosso país tenham espaços que reflictam a arte angolana, a sua multiplicidade, a sua riqueza. Não temos que engalanar os nossos hotéis com coisas que venham de Portugal, África do Sul e etc. Temos que ter um certo proteccionismo das autoridades em relação àquilo que fazemos. Temos artistas que precisam de evoluir, trabalhando e colocando os seus trabalhos em locais onde o grande público os possa ver. No caso concreto dos hotéis, são lugares onde pessoas de muito bom gosto geralmente passam, com informação e visões múltiplas sobre a arte, e essas pessoas, acredito, gostariam de encontrar nos hotéis de Angola esse reflexo da arte angolana.

Tudo o resto, reproduções, eles já conhecem. Não sei se vamos precisar de uma lei que defenda que em todos os novos edifícios, quer seja na sua fachada, como no seu interior ou no seu átrio devem ter pinturas, esculturas, gravuras, ou mesmo azulejos que demonstrem a realidade cultural de Angola e que permita que os artistas, por si só, tenham meios para continuar a produzir e a evoluir. Isso é benéfico para todos, inclusive para o Estado.

Desde sempre teve a preocupação de trabalhar acompanhado de outros artistas. Porquê?
Devo dizer o seguinte em relação a isso: hoje o mundo caminha muito para o individualismo, e isso é um mal terrível. Quando muitas cabeças estão a cooperar, a evolução é melhor.

Um artista que se fecha, como diz o escritor Luandino Vieira, é como um gato que tenta morder a sua própria cauda. Precisamos cultivar essa harmonia; e prepararmo-nos para uma coisa que é fundamental: não ter medo da concorrência. O artista que se preza não tem medo da concorrência.

Porque cada um tem a sua formação, a sua expressão que, todas somadas, tornam-se numa coisa que se chama riqueza. Por isso é que muitas vezes acredito que é bom trabalhar com outros artistas. Eu não teria exposto na Alemanha hoje, acredito, se não tivesse trabalhado com o Horst Popp. A não ser que houvesse um forte trabalho diplomático que certamente gastaria muito dinheiro.

Tem ideia de quantos quadros já pintou?
Olha, nos primeiros cinco anos do meu trabalho eu declarei ter pintado cerca de quinhentos quadros. Hoje tenho um registo que não gostaria de revelar, porque na altura que eu disse que tinha pintado quinhentos quadros, muitos colegas disseram-me que assim fica-se com a impressão de que a pintura é muito fácil. Não é fácil.

Mas para quem acorda inspirado, começa a trabalhar e se dedica todo dia à pintura até à exaustão, sem as pernas aguentarem, e que dispensa muitas vezes, como eu dispensei nos primeiros anos, a praia, etc., a ponto de muitas pessoas, especialmente da família, ficarem prejudicadas, ou seja, por tudo que eu dei pela arte, valia a pena naquela altura dizer que tinha pintado quinhentos quadros.

Assim como valeria a pena afirmar que nesta altura já pintei cerca de mil quadros. E é sempre muito pouco, porque comecei a pintar muito tarde, aos 40 anos, e em dez anos eu pintei isso.

Para quando pretende aparecer a público com uma nova exposição?
Muito sinceramente, já não há espaços para expor. Aqui na capital já procurei quase todos os espaços: fui expor no Instituo Camões meia dúzia de vezes; fui expor ao Museu de História Natural três ou quatro vezes; não vejo onde expor mais, já que não gosto muito de expor nos hotéis que não tenham condições, salas adequadas.

Quem projecta os hotéis pode pensar também nisso: os hotéis podem ser lugares de difusão da arte, mas não da maneira como tem sido feito, com uma dúzia de cavaletes num corredor onde passam pessoas que vão para a piscina ou para o ginásio. Sem vaidade nenhuma, hoje aprendi que uma obra de arte tem que ser bem acondicionada, bem iluminada, e isso só é possível em salas adequadas.

O que lhe pareceu a atribuição do Prémio Nacional de Cultura e Artes na disciplina de Artes Plásticas ao Núcleo de Artistas Plásticos da província de Benguela?
Conheço este núcleo e louvo o esforço e o trabalho que o mesmo tem feito, pois é um trabalho persistente. Mas o facto de eles terem ganho o prémio exige que as estruturas locais pensem na importância que este grupo tem. Merecem espaços para expor.
 
 
 



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