A história da Baixa de Kassanje
Escrito por AnicetoJJC Sáb, 02 de Janeiro de 2010 00:00
O trabalho forçado também era abominado pela população local.
A incursão aos meandros do município do Quela, referenciado como o berço da revolta da Baixa de Kassanje, trouxe a lume revelações que contrariam, de certa forma, as informações correntes sobre o massacre ali ocorrido em Janeiro de 1961.Contam os mais velhos e sobreviventes à chacina, que tudo começou às primeiras horas da manhã de quatro de Janeiro, 5, 6 horas, quando camponeses se rebelaram contra o esquema de escravidão implantado pela Cotonang, um consórcio luso-belga da área do algodão, na província de Malanje que ocupava uma vasta zona de cultivo.
Os soldados que dispararam as balas mortíferas naquela manhã tinham acampado desde as 17 horas do dia 3 de Janeiro, num domingo, na sede municipal do Quela e saíram de lá às primeiras horas de 4 de Janeiro.
As fontes do jornal O pais não se lembram do número exacto de militares do exército colonial português, mas se recordam que eram 35 as viaturas que transportaram os soldados mobilizados para a operação, quando encontraram uma barreira em Khuia Makudi, próximo de uma aldeia, cujo soba se chamava Teca dya Kinda.
Segundo o regedor do Quela, Lucas Sokola, de 88 anos de idade, na manhã em que os soldados sairam da sede do Quela tinham como destino o município de Kunda dya Base de onde chegaram, às autoridades coloniais, informações da ocorrência de uma rebelião dos camponeses locais que se recusavam a obedecer a autoridade colonial, vigente em Angola.
O esquema de exploração, um dos leitmotiv do episódio, incluía até a entrega de animais exóticos da fauna angolana como papagaios, jacarés, veados, macacos, corças, jibóias e peixes dos rios, na sequência de qualquer incumprimento de uma demanda colonial.Qualquer falta levava o prevaricador a apanhar entre cem e cento e vinte palmatórias nas mãos.
“Quando eles chegaram, encontraram a população agrupada aqui no Teca dya Kinda sentada na estrada para impedir que os carros passassem. A população tinha flechas e canhangulos, mas estes não estavam carregados”, disse Lucas Sokola.
O trabalho forçado também era abominado pela população local que não encontrou outra via senão afrontar o poder explorador colonial, personificado na exploração dos camponeses que trabalhavam na cultura do algodão.
“Eles disseram, quando chegaram, que não queriam nada connosco, mas sim com os do Kunda, mas nós dissemos que tanto eles, os do Kunda, como nós éramos iguais, éramos angolanos e o que eles, queriam tratar com os do Kunda, podiam tratar connosco”, revelou Sokola.
Depois de o comandante das tropas ter travado uma discussão inconclusiva a contento com os revoltados, ordenou a abertura de fogo na área onde hoje foi construído o monumento em homenagem às vítimas da repressão colonial.
Tiros de água
Na discussão havida entre os militares portugueses e os sublevados, estes ainda disseram que das armas dos agressores sairiam água e não balas. Na verdade, os camponeses haveriam de ser assassinados sem apelo nem agravo e com histórias por contar.As razões do episódio não são bem claras, mas há a reter dos depoimentos dos mais velhos que a situação vivida no então Congo Leopoldville, marcada pela independència deste pais, activou o sentimento de revolta contra os colonalistas portugueses. Viajantes que cruzavam a fronteira traziam novidades sobre a situação no Congo.
“Quando o povo do Quela se preparava para a revolta, houve um homem chamado Vuvu que veio na direcção de Kunda dya Base a instigar os angolanos a não obedecerem os portugueses, porque o Congo já estava livre e nós angolanos tinhamos de tomar idêntica atitude”, sublinhou um dos sobreviventes.
Juntamente com o nome de Vuvu eram referenciados os de Lumumba, Kasavubu e Maria, figuras não conhecidas fisicamente pelas fontes de O PAÍS como sendo os libertadores das terras angolanas do jugo colonial português. Este terá sido o lado político da revolta dos camponeses do algodão cujo epicentro esteve no município de Kunda dya Base.
Depois do episódio do que hoje viria a ser conhecido como o início do massacre da Baixa de Kassanje, a onda de violência espalhou-se por toda a área de cultivo de algodão controlada pela Cotonang.
As vítimas Dados sobre a chacina indicam que terão sido sepultados no local do massacre perto de cinco mil pessoas, segundo informações fornecidas no local por responsáves da administração actual do município do Quela, mas existem dados que apontam para para outros números.
Informações sobre uma monografia a ser elaborada pela administração municipal local indicam que terão sido mortos em Teka dya Kinda 680 pessoas, dado atestado por um antigo funcionário da administração colonial do concelho do Quela.
Este mesmo documento a que O PAÍS teve acesso revela que a data provável do massacre terá sido o 6 de Janeiro, uma segunda-feira.
Bernardo Famorosa, um dos sobreviventes daquela manhã, ainda traz as marcas das balas disparadas contra si e conta como foram os momentos seguintes aos disparos.
“Depois de terem disparado, eles perguntaram quem estava vivo e pediram para se levantarem. Depois disso deram pão, cigarros e outros meios que eles traziam e levaram os feridos para o hospital do Quela onde foram tratados”, disse Bernardo Famorosa.
Também conta que as vítimas mortais foram enterradas no local com ajuda da população que lá acorreu depois do incidente. A escalada de violência estendeu-se a todas as áreas de cultivo com a caça às bruxas também.
As fontes disseram ter visto um avião a sobrevoar a região sem, no entanto, ter lançado qualquer engenho explosivo.
“O avião sobrevoou aqui e desapareceu sem disparar ou descarregar uma única bomba aqui no Quela”, disseram as fontes que admitiram no entanto a possibilidade de a violência ter recrudescido noutras áreas da Baixa de Kassanje.
Disparidades
O novo elemento introduzido pela administração local que avança o 6 de Janeiro como o da ocorrência do massacre, traz consigo também a polémica em relação à precisão se teria sido numa segunda feira.
De acordo com um calendário perpétuo, o 4 de Janeiro foi numa quarta-feira e a agora também avançada hipótese de 6 de Janeiro foi numa sexta-feira.
Desencontro com a História O primeiro presidente de Angola, António Agostinho Neto visitou o local, a 20 de Agosto de 1979, onde foi erigido um monumento em homenagem às vítimas da Baixa de Kassanje, descerrando uma placa onde se podia ler “Honremos os heróis da Baixa de Kassanje” e, ao lado, deveria ser construída uma aldeia piloto que não passou do papel, pois os materiais de construção foram usados para benefício das entidades que superintendiam na província o Ministério da Construção e Habitação.
Na área cercada existem cinco montes de terra que simbolizam cada um mil pessoas, presssupondo que ali estejam enterradas 5 mil pessoas.
O reconhecimento, de facto, da data que já fora feito por Agostinho Neto, só teve lugar depois que a FNLA se bateu por ela no primeiro parlamento, embora as pessoas contactadas por este jornal não pudessem falar da direcção política da revolta por parte desta partido político.
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